Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

Quinta-feira, Junho 12, 2008

Crise dos dois anos

As atualizações serão interrompidas até que todos os colaboradores recobrem o fôlego, no inferno. Passe o termo. Amém.

Quarta-feira, Maio 28, 2008

"Hermenêutica do conceito de morte enquanto bater as botas", por Daniel Liberalino.


... por Hélio Flanders.

tive um pressentimento, no trem lotado.

"Festa da groselha", por Lápis Lazúli.

O amor é quando nasce entre moedas erradas. Uma força constante deenganos em que dançarinos de rumba são subjugados. Viver para Judithera pior que cego tomar choque na sorveteria. Ser vítima de febreenquanto alguém te menospreza não é legal. Vários te prezam aindaesperando receber o seu cartão com ilustrações de carnes elacticínios. Querem que você nasça para os outros. Hoje quero somenteque conte e que essa contagem seja diferente: que calcule os beijosclandestinos dados pelos passageiros do cruzeiro feito neste fim desemana para o estreito do fósforo e talvez não voltem, troque o títuloda Miss Chalana 97 por bronze e capte recursos suficientes paraproduzir a maior torre feita de amoras cobertas com ramos de jojobasque um cego possa comer. Chega de eletricidade. Que muitas alegriastragam a festa da groselha para a sua rua. Sei com tristeza quantovale o momento, não tenho dinheiro mas estou me programando. Não seja a única. Não foi difícil arrancar um dente seu. Hoje quero mais queontem, e quem sabe viver muitas vezes o amanhã em que muitas chalanasse afundam pelo rio de groselha escura e borbulhante no meio da noitearcaica, mas você sempre escapa! sempre escapa no penúltimo badalo daaurora, quase morta, quase sem unhas, quase sem cheiro.

... por Sara Castillo.

a verdade é que eu já sabia de tudo, o tapa na cara, eu já sentia minha pele arder alguns dias antes. mas como de costume tapei os olhos e joguei o corpo. esperei pelas palavras, tão confusas, que vezenquando saltam das bocas. mas o que veio foi o inaudível, não pude captar. então comecei a roer as unhas, a balançar as pernas, torcer guardanapos. mesmo assim nenhuma mensagem. tudo isso já era bem óbvio, o suficiente. mas eu, com a minha mania de significados e prolongações, queria espremer tudo, chupar o bagaço, ver o oco. pisciana confusa, me disseram em voz alta. pisciana neurótica, eu disse em voz baixa a mim mesma. apaguei um a um - como o de costume - aí corri, sem deixar nenhum sinal. tive uma emoção como todas as outras e só.

Terça-feira, Maio 13, 2008

"Homem de Firme Destino - Uma odisséia grotesca rumo ao sul", por Márcio Nazianzeno.

CAPÍTULO XIV

(Onde o herói copula com uma assombração que mais tarde se revela uma prolífica escritora de auto-ajuda).

Naquela noite de lua cheia, nas redondezas do velho castelo do Conde de Langresgraais, um gato preto como a escuridão correu por baixo de uma escada. O episódio, por assim dizer, poderia deixar alguns supersticiosos realmente confusos: se um gato preto, cuja corcunda carrega a encomenda da má-sorte aos outros, acaba ao custo de rara coincidência ele também contraindo algum azar ao passar por baixo de uma escada (o efeito seria o mesmo de dois gatos pretos se entrecruzando em uma esquina) teria ele anulado a maldição? Ou somente potencializado seu efeito, ficando ele mesmo tão azarado quanto os desafortunados com quem encontra? Para o esfomeado Homem de Firme Destino, cujo estômago já começava a digerir o próprio vazio num doloroso processo de autofagia mais física que existencial, era algo que definitivamente não lhe dizia qualquer respeito. Ocorreu-lhe, então, desistir do gato. Além de astuto, o bicho era tão mirrado que de tão magro não lhe renderia nem mesmo uma sopa. Haveria de prosseguir a caçada, o Homem, não tivesse ele a ambição comum somente aos grandes heróis e desafortunados. Eis o que os ventos supõem: a muralha do castelo do Conde de Langresgraais, iluminada pela luz azul da lua, era por si mesma um mistério: uma espécie de cortina a encobrir um todo um universo de possibilidades – dentre elas, a de encontrar um banquete dos mais ricos regado a vinho e carne de caça, gentilmente servido e compartilhado pelas damas da corte – aristocratas, nobres, serviçais, escravas, de origens étnicas as mais diversas – vestidas com seus espartilhos apertados tais máquinas de tortura, e, ainda, sorrindo docemente apesar da carne da cintura brutalmente transferida para partes mais nobres quais as nádegas e os seios. Ora, pois, com o apetite em que estava as devoraria mesmo na mesa, ainda com uma costela de faisão a assobiar entre os dentes, as mãos gordurosas, e assim varreria o vazio do estômago e saciaria ainda seu companheiro, o cavalheiro da retumbante figura: eis aqui a justiça e a igualdade entre irmãos. Mal havia se aproximado do fosso que cercava o castelo, onde anunciaria sua chegada a pedradas, e a ponte levadiça esticou como uma língua de ferro. Sem pestanejar, realizou a travessia como um inseto prestes a ser engolido. Chegando ao pátio, onde o mato era vasto, nada vivo encontrou exceto por alguns morcegos e ratos que logo fugiram. Talvez, disse às paredes, esse amontoado de rochas e insetos fosse de mais valia ao gato preto que, vá lá, também merecia um repasto. E assim, como uma fagulha de esperança, algo se pronunciara à sua frente. Estava ali um soldado medieval de traços marcantes: levemente transparente, de nariz grande e uma machadinha cravada no meio do crânio, que lhe dava, por assim dizer, certo reforço ao seu estilo medieval. Sem mencionar palavra e protegendo a retaguarda, o soldado escoltou o Homem de Firme Destino até o salão principal onde se encontravam os outros de sua estirpe, os fantasmas. O soldado, então, parou. E com o ar mais indiferente desse mundo se desfez em uma espécie de poeira, alcançando um efeito pirotécnico ainda mais interessante que a machadinha na cabeça. O Homem de Firme Destino compreendeu, naquele instante, que o antigo castelo do Lorde de Landergaais havia se rendido não às guerras e a guerreiros, mas à fúria dos tempos modernos, que lhe transformou em hotel que, embora medieval, era ainda assim somente um hotel, freqüentado por fantasmas de nobres, aristocratas e etc. dos mais longínquos séculos em busca de entretenimento vazio e barato. E, assim, quando estavam entediados demais, eles arrastavam pelo castelo suas grossas correntes, derrubavam objetos pela casa ou simplesmente percorriam os cômodos para abrir e fechar portas rangentes – porque assim se sentiam vivos, como quando não podiam simplesmente atravessar as paredes. Pois bem: portas rangiam, correntes eram arrastadas e objetos flutuavam no ambiente quando avançou pelo salão o Homem de Firme Destino, o obstinado, que logo cravou os dentes na massa de ectoplasma de uma entidade que ali na sua frente estava a se materializar: possuído pela fome, terminou por devorar a perna esquerda da antiga Condessa de Langresgraais. Foi então que, tentando contornar a situação em que acabara de condenar uma alma penada a vagar pela eternidade sem uma das pernas, uma falta de modos descomunal, diga-se, tratou de recompensar a assombração com o mais intenso prazer carnal. Sussurros sensuais & sombrios, gemidos lamuriosos ensandecidos, arrepios em cada pêlo de seu magro corpo; com o da retumbante figura a deferir violentas estocadas na massa translúcida como se flutuasse nas nuvens – estava a currar a assombração com invejável empenho. Os mais supersticiosos, deixando um pouco de lado a problemática do gato preto e a escada, passariam então a discutir as questões éticas do sexo entre corpo e espírito. Mais tarde o caso ganharia maior atenção e popularidade com os best-sellers de autoria da própria Condessa, que se revelou uma prolífica escritora dos maiores livros de auto-ajuda jamais psicografados. Dentre seus sucessos, podemos destacar os inconfundíveis “Porque humanos fazem sexo e fantasmas fazem amor”, “Sexo após a morte: uma questão de espírito”, “Morri. E daí?”, “A vida começa aos 670” e o polêmico “Na cama com Deus – As revelações da Condessa de Langresgaais”. A autora, que jamais obteve sucesso em vida, nega os boatos sobre a existência de um ghost writer.
Acreditem ou não, foi assim que, naquela noite de lua cheia nas redondezas do castelo do Conde de Langresgraais, o Homem de Firme Destino provou que não existe obstáculo suficientemente grande para o amor. Em todo caso peço para que não deixem para encontrar o amor verdadeiro somente após a morte, quando serão vocês mais respeitados e queridos, que nunca se sabe...

"Continho de fadas atemporal", por Danilo Fochesatto.

Aquele dia eu dirigia olhando através do trânsito sem vê-lo em sua densidade, quer dizer, sem prestar atenção nem pensar em nada. Simplesmente segurava o volante e de maneira mecânica trocava as marchas, pisava no acelerador e olhava fixo em um ponto qualquer a minha frente. Depois, quando parei o carro no semáforo, encontrei no retrovisor uma garota de programa seminua acenando na minha direção. De longe a vi pôr o cigarro na boca e tragar tão profundamente quanto homem algum seria capaz de. Uma chispa de tesão me reanimara, dando corda no brinquedo. Desci do carro e me ajoelhei, beijando seus pés.
– Case comigo, princesa, case – implorei, com romantismo tempestuoso.
Ela apagou o cigarro na sola do sapato. Tirou uma pequena garrafa de aguardente e emborcou no gargalo.
– Cai fora! Tu não é macho de verdade. É um burro de galocha!
Enfiei o rabo entre as pernas.
Comparado a ela, eu era, de fato, um reles chapeuzinho vermelho perdido na floresta de néon repleta de lobos de pelúcia.

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(Não muito longe dali, sua irmã gêmea, outra meretriz, se jogava na frente de uma BMW e morria feliz. Eu, que semelhante ao burro só tinha o sangue carmesim nas veias e o cérebro domesticado, vivi mais 20 anos carregando o fado de ser monótono).

Terça-feira, Maio 06, 2008

"Incompletudes", por Lorenzo Falcão.


De repente bateu um vazio infinito na minha vida. Faz sol lá fora, não há sombra que preencha. Hora de o poeta se vingar das mulheres que não comeu com versos inacabados. Não que ele seja machista ou garanhão de plantão. Ele apenas queria um frango assado com todas as mulheres desejadas. Seus versos incompletos (casos mal resolvidos) estão sob o travesseiro ou debaixo do colchão do seu leito enciclopédico.

"Praquela transa", por Guilherme Nogueira.

Não construamos um futuro brígido e supérfluo
Demo-nos os sentidos gerais;
Vamos! Façamos o presente – cadê o corpo?
- Quero tocá-la, dê-me sua mão,
O calor do momento! –
Quero ouvir-lhe falar
Comentários quentes e vívidos, mordazes e sedutores
- O que sente? O que vê? –
Não construamos um futuro brígido e supérfluo,
Menina,
Não construamos nada,
Não construamos uma idéia de ter.
Dê-me seu calor agora.
Dê-nos o momento de poesia em lazer.

Terça-feira, Abril 22, 2008

"Tédio", por Sara Castillo.

tédio: contento-me com o pequeno léxico. a cada dia que passa descubro que sou mais estômago do que sexo. exemplares casualidades; pensar no próprio prazer, não tocar. só uma relação isenta de sentimentalismo, em que nenhum dos parceiros se arrogue direitos sobre a vida e a liberdade do outro, pode trazer felicidade para ambos, artigo n° 1. há muito tempo exclui o amor da minha vida, pegar na mão é abuso, é anti-erótico - dividir o mesmo banheiro então? intimidade possivelmente inaceitável - mas há pouco tempo não alcanço a sincronicidade das coisas e nessa afirmação inclua também o sexo. ontem foi o ápice, no fim da noite tudo o que eu queria era me sentir viril. não deu certo. acabei me perdendo sozinha no branco do teto. lá estava eu, ridiculamente despida, tentando satisfazer a quem? já estava seca, essa era a verdade, e mesmo sem tesão aceitei o hábito. tão seca que conseguia engolir com uma indiferença incrível, então retomamos: sou mais estômago que qualquer outra coisa, pois veja, a partir do momento em que o prazer individual é descartado nos tornamos seres assexuados, a língua e o tato são infrutíferos já que a libido é estéril.

"A Petisqueira", por Lápis Lazúli.

Vou ser a sua mente para fora do relógio. No momento tudo está queimado de curiosidade. Infelizmente é apenas o tempo certo. Vênus se viu sustentada por pinos de falsos cravos. Ela não queria ter passado por mapas, imagens e não queria que uma jarra cheia de ventriloquismo derramasse sobre sua cabeça.. Estaria ela com o conhecimento de que não havia ninguém para ouvir os seus bocejos? A solução disso? Que não tivesse nenhuma idéia a partir de agora. Sim, é o grau. Ela disse em voz alta. Devo estar adquirindo várias coisas que não tenho idéia. Tenho que apurar meu baço de girafa anã. Preciso de dias feras. Cansei de patrocinar brigas entre monólitos mal vestidos no intervalo do colégio e fazer polichinelos deitada dentro do freezer do supermercado esperando um tiro. Deixa-me abraçar os ricos petiscos que tanto me fazem bem. São eles que me acompanham enquanto jogo sorvete de planetas nas jaquetas de bombril dos pilotos de kart. Os petiscos de pedra molhada e faiscante prenderam fogo mesa da minha cozinha e agora a casa está em chamas. Petiscar é o terceiro nome da sabedoria.

"Capítulo X...N... do Livro 9 de 'A Vida de Eskobar'", por Guilherme Nogueira.

Eu andava de volta pra casa. Estava noite. Passava por um túnel de vegetação. Bem à frente, na esquina ao extremo, um par de árvores finas, retorcidas e pouco maiores do que eu e com as folhas bem verdes focaram-se em meus olhos como a silhueta de uma mulher muito sensual, sendo que o núcleo era transparente e as pernas bem grossas. Continuei caminhando e lentamente diminuía a marcha de forma a não perder de vista minha admirável criação boa. No trajeto, de repente um galho espetado acertou o coco da minha cabeça e parei naquele instante. Olhei para trás fazendo um arco com minha cabeça e revendo tudo o que havia andado. As árvores, do ponto mais escuro, que fora por onde eu tinha entrado, até o ponto mais claro na esquina, onde a silhueta deliciosa me esperava, chamavam-me. Encantado eu abracei a primeira ao meu lado. Beijei a segunda. Subi na terceira, subi, pulei e abaixei as calças na quarta, na quinta e nas outras igualmente. Comi tudo vorazmente até a boca salivar cheia de pus baborento. Ao chegar ao ponto G, esperançoso, contente e quase exausto, minha amante se esmorecera e meu pêndulo vital desabara. Para não me abster de virtude, tomei fôlego e dei partida para minha casa novamente.

Meu grande poder auto-outorgado dos tempos imemoriais, aquele que me torna superior aos outros reles mortais, é o esquecimento inigualável. No outro quarteirão comecei a entrar numa escuridão profunda. Não havia iluminação pública e o asfalto parecia pedaço perdido de céu sem sol, luar e sem pontos droguísticos faiscantes. Perdia-me caminhando contra eu mesmo, comigo mesmo, através de um lugar desconhecido, de volta ao eterno caminho e adorável do lar.

Mais dançava do que chorava – nua dos seios pra baixo – uma dama perdida nas trevas. Parei e perguntei se ela precisava de ajuda. Ela deixou de lado o chororô e apertou com dura agarrada minha mão doada. Mesmo com toda aquela escuridão, pude ver refletida pela frouxa luz de uma lâmpada provinda da garagem da casa aos fundos uma ferida avermelhada em sua virilha. Eu que já andei muito, tendo ido e vindo, que sou superior aos demais e conhecedor dos segredos mais absolutos do universo, já fui ao espaço e ao inferno, não perdi tempo criando opinião alguma. A cena era tão bacana quanto um cuspe alheio, visto por mim ao comer um cachorro-quente de carrinho, atirado a um bueiro em plena tarde de verão à feira de uma corrente sexta. Ela me convidou sutilmente para que eu a acompanhasse àquela mesma casa de onde a luz saía. Fui embalado pela onda.

Dois rapazes estavam sentados assistindo à televisão, mas pareciam demasiado bêbados. Um usava boné e o outro tinha longos cabelos. Cumprimentaram-me com vozes amassadas e faladas pra dentro. Ninguém se moveu. Ambos estavam desleixadamente em posição de uma perna esticada, outra dobrada e fazendo noventa graus, uma mão sobre o saco, outra esticada sobre a perna reta e olhos zarolhos, com esgares inconscientes pregados à suas caras amassadas e fedor diretamente emanado.

Os sujeitos se levantaram e disseram pra eu esquecer aquilo. A mulher era maluca. Um deles, o que usava boné, deu um murro na cara dela, chutou-a até que a moça caísse no chão. Continuou chutando-a. Aquilo aparentemente me impressionava. Já familiarizado eu procurei uma garrafa de cerveja na geladeira, mas peguei duas e também um copo. Quebrei uma das garrafas na cabeça do marmanjo, calmamente, mas usando força necessária para que o rapaz tombasse desmaiado. Fiquei bebendo com ligeireza meu copo e quando o outro rapaz apareceu disse que eu fizera cagada. A mulher então foi até ele, abraçou-o e virou a bunda. O cara deu vários tapas, chutou-a com a sola do pé e sentou-se no sofá dizendo: “Ela é a prostitua mais louca que eu já vi. Pagou a gente pra comê-la”. Terminei minha garrafa e fui embora.

Mais alguns quarteirões e então eu estava em casa curtindo meu hermafroditismo malhado.

Terça-feira, Abril 15, 2008

"Beijo", por Lorenzo Falcão.

ainda estou aprendendo
a te conhecer melhor.
sigo suas pistas
e reparo no seu cabelo
todas as vezes
em que nos encontramos.
às vezes nem te beijo
e é quando mordo a sua sombra.
tem dias que te beijo
e então tudo fica
mais ou menos confuso.
você é mulher musa
que surgiu numa dessas esquinas da vida
pra sacudir o meu destino.
te conheci e te gosto
mas gostaria de saber te usar melhor.
cadê o seu manual de instruções?

imagem: gustav klimt - 1907-08 - the kiss.

Quinta-feira, Abril 03, 2008

... por Hélio Flanders.

Vai ser bonito vermos-nos mais crescidos. Vai ser bonito vermos-nos vivos. E estamos fodidamente vivos, Nico. Cuide-se tão bem quanto a manhã passada. Prefiro maremotos a furacões, mas você deve preferir o contrário. Deve preferir a falta de calma dentro dos olhos. Eu vi tuas mãos de argila. Você é viento,

Y yo soy oceánico.

"Doce da sabedoria", por Danilo Fochesatto.

O mestre chegou ao templo com o espírito escaldante.
– O que você fez, tolo? – ríspido, perguntou ao discípulo.
– Nada.
– Então onde está o valioso doce da sabedoria?
– Ah, quer saber? Eu comi – orgulhoso, ele bateu na pança e mostrou o rosto lambuzado pelo doce – Sim, eu comi, seu trouxa!
De noite, declararam o fim do mestre, expulsando-o para as montanhas. Entregaram-lhe apenas seus pertences. Um prato vazio, um calendário vencido e uma cabra velha.
Mais tarde, o discípulo teve dor de barriga e, por ter se tornado muito sábio, lamentou o ocorrido para seu amigo sapo.

"Virtuosos existencialistas globais", por Guilherme Nogueira.

O combinado era irrevogável. O boêmio – malandro da segunda geração da metrópole da praia – morava a nove quilômetros dali. Pegaria dois ônibus até o lugar que Madalena enfatizara nas mensagens enviadas à incrível velocidade da luz pelo computador. A garota magra, loira, de nariz pontiagudo, de olhos pretos, sobrancelhas claras, estava de pé, de costas ao ponto. O cyber-café onde deveriam encontrar-se ficava no outro lado da rua. Vinte minutos correram rapidamente e ela sabia que o ônibus que encostava era o do rapaz. Viu com o canto dos olhos alguém com a mesma descrição: discreto, bem vestido, despenteado. Ele entrou na porta vai-vem. Era observado a cada instante.
Madalena trajava uma roupa diferente daquela que dissera que vestiria no tal dia. Era o tal dia, abafado, úmido, quase chuvoso. Ela ficou algum tempo ao balcão olhando para o moço. Viu que suas têmporas estavam suadas. Ele estava impaciente com os olhos aflitos e frenéticos, porém resignado. Tinha olhos fundos, face magra, corpo raquítico. Não corava de forma alguma. O movimento lento, ao pedir uma cerveja para a atendente, deu risos à garota que sentou de chofre na mesa. Olharam-se e três segundos depois ele disse:
- Eu não tinha visto.
- Nem eu. Fiquei ali esperando. Já ia embora.
- Tudo bem com você?
- Tudo. O que você pediu?
- Cerveja.
- Chope?
- Não. Dois copos.
Eles alcançaram a noite facilmente. Dividiram a conta. Na rua paradisíaca, mal cheirosa, requintada pelos clarões atordoantes, com explosões de barulhos incompreensíveis, sem categoria, imunda, linda, os deuses tutelares das intempestividades empurraram-nos para um poste inclinado. O hacker, despercebido de si, colocou uma mão nos cabelos dela e a outra em sua cintura e grudou-a nele. Ela apertava sua bunda e o beijava.
- Quantos anos mesmo?
- Eu disse várias vezes.
- É.
- Vinte.
- Dezessete.
- Mora perto então?
- Não.
- Espertinha. Vamos pra minha casa?
- De ônibus?
- Claro!
Caminharam mais um pouco, contornando o litoral, com os pés descalços na praia e resolveram que era páscoa carnavalesca. O ritmo do “indie rock” a poucos quarteirões dali, despejado dum palco improvisado, fez-lhes porem-se de prontidão à vontade. Um tiro seco enganou a noite e deu um susto. Já na água quente, reluzente, ela convidou-o para um banho. Ele riu e seguiu. Mandaram bala.
Acordaram com o sol fervorosamente chutando suas caras. Ele disse que passara um dia ótimo e que ela era bem legal. Ela contou que morava ali perto, num prédio beira-mar. Ele sabia disso. Ela emprestou três pilas abraçando-o e ele tomou o rumo num ônibus seboso.