Crise dos dois anos
As atualizações serão interrompidas até que todos os colaboradores recobrem o fôlego, no inferno. Passe o termo. Amém.
Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?
As atualizações serão interrompidas até que todos os colaboradores recobrem o fôlego, no inferno. Passe o termo. Amém.
O amor é quando nasce entre moedas erradas. Uma força constante deenganos em que dançarinos de rumba são subjugados. Viver para Judithera pior que cego tomar choque na sorveteria. Ser vítima de febreenquanto alguém te menospreza não é legal. Vários te prezam aindaesperando receber o seu cartão com ilustrações de carnes elacticínios. Querem que você nasça para os outros. Hoje quero somenteque conte e que essa contagem seja diferente: que calcule os beijosclandestinos dados pelos passageiros do cruzeiro feito neste fim desemana para o estreito do fósforo e talvez não voltem, troque o títuloda Miss Chalana 97 por bronze e capte recursos suficientes paraproduzir a maior torre feita de amoras cobertas com ramos de jojobasque um cego possa comer. Chega de eletricidade. Que muitas alegriastragam a festa da groselha para a sua rua. Sei com tristeza quantovale o momento, não tenho dinheiro mas estou me programando. Não seja a única. Não foi difícil arrancar um dente seu. Hoje quero mais queontem, e quem sabe viver muitas vezes o amanhã em que muitas chalanasse afundam pelo rio de groselha escura e borbulhante no meio da noitearcaica, mas você sempre escapa! sempre escapa no penúltimo badalo daaurora, quase morta, quase sem unhas, quase sem cheiro.
Aquele dia eu dirigia olhando através do trânsito sem vê-lo em sua densidade, quer dizer, sem prestar atenção nem pensar em nada. Simplesmente segurava o volante e de maneira mecânica trocava as marchas, pisava no acelerador e olhava fixo em um ponto qualquer a minha frente. Depois, quando parei o carro no semáforo, encontrei no retrovisor uma garota de programa seminua acenando na minha direção. De longe a vi pôr o cigarro na boca e tragar tão profundamente quanto homem algum seria capaz de. Uma chispa de tesão me reanimara, dando corda no brinquedo. Desci do carro e me ajoelhei, beijando seus pés.
– Case comigo, princesa, case – implorei, com romantismo tempestuoso.
Ela apagou o cigarro na sola do sapato. Tirou uma pequena garrafa de aguardente e emborcou no gargalo.
– Cai fora! Tu não é macho de verdade. É um burro de galocha!
Enfiei o rabo entre as pernas.
Comparado a ela, eu era, de fato, um reles chapeuzinho vermelho perdido na floresta de néon repleta de lobos de pelúcia.
.
.
.
(Não muito longe dali, sua irmã gêmea, outra meretriz, se jogava na frente de uma BMW e morria feliz. Eu, que semelhante ao burro só tinha o sangue carmesim nas veias e o cérebro domesticado, vivi mais 20 anos carregando o fado de ser monótono).

De repente bateu um vazio infinito na minha vida. Faz sol lá fora, não há sombra que preencha. Hora de o poeta se vingar das mulheres que não comeu com versos inacabados. Não que ele seja machista ou garanhão de plantão. Ele apenas queria um frango assado com todas as mulheres desejadas. Seus versos incompletos (casos mal resolvidos) estão sob o travesseiro ou debaixo do colchão do seu leito enciclopédico.
Não construamos um futuro brígido e supérfluo
Eu andava de volta pra casa. Estava noite. Passava por um túnel de vegetação. Bem à frente, na esquina ao extremo, um par de árvores finas, retorcidas e pouco maiores do que eu e com as folhas bem verdes focaram-se em meus olhos como a silhueta de uma mulher muito sensual, sendo que o núcleo era transparente e as pernas bem grossas. Continuei caminhando e lentamente diminuía a marcha de forma a não perder de vista minha admirável criação boa. No trajeto, de repente um galho espetado acertou o coco da minha cabeça e parei naquele instante. Olhei para trás fazendo um arco com minha cabeça e revendo tudo o que havia andado. As árvores, do ponto mais escuro, que fora por onde eu tinha entrado, até o ponto mais claro na esquina, onde a silhueta deliciosa me esperava, chamavam-me. Encantado eu abracei a primeira ao meu lado. Beijei a segunda. Subi na terceira, subi, pulei e abaixei as calças na quarta, na quinta e nas outras igualmente. Comi tudo vorazmente até a boca salivar cheia de pus baborento. Ao chegar ao ponto G, esperançoso, contente e quase exausto, minha amante se esmorecera e meu pêndulo vital desabara. Para não me abster de virtude, tomei fôlego e dei partida para minha casa novamente.
Meu grande poder auto-outorgado dos tempos imemoriais, aquele que me torna superior aos outros reles mortais, é o esquecimento inigualável. No outro quarteirão comecei a entrar numa escuridão profunda. Não havia iluminação pública e o asfalto parecia pedaço perdido de céu sem sol, luar e sem pontos droguísticos faiscantes. Perdia-me caminhando contra eu mesmo, comigo mesmo, através de um lugar desconhecido, de volta ao eterno caminho e adorável do lar.
Mais dançava do que chorava – nua dos seios pra baixo – uma dama perdida nas trevas. Parei e perguntei se ela precisava de ajuda. Ela deixou de lado o chororô e apertou com dura agarrada minha mão doada. Mesmo com toda aquela escuridão, pude ver refletida pela frouxa luz de uma lâmpada provinda da garagem da casa aos fundos uma ferida avermelhada em sua virilha. Eu que já andei muito, tendo ido e vindo, que sou superior aos demais e conhecedor dos segredos mais absolutos do universo, já fui ao espaço e ao inferno, não perdi tempo criando opinião alguma. A cena era tão bacana quanto um cuspe alheio, visto por mim ao comer um cachorro-quente de carrinho, atirado a um bueiro em plena tarde de verão à feira de uma corrente sexta. Ela me convidou sutilmente para que eu a acompanhasse àquela mesma casa de onde a luz saía. Fui embalado pela onda.
Dois rapazes estavam sentados assistindo à televisão, mas pareciam demasiado bêbados. Um usava boné e o outro tinha longos cabelos. Cumprimentaram-me com vozes amassadas e faladas pra dentro. Ninguém se moveu. Ambos estavam desleixadamente em posição de uma perna esticada, outra dobrada e fazendo noventa graus, uma mão sobre o saco, outra esticada sobre a perna reta e olhos zarolhos, com esgares inconscientes pregados à suas caras amassadas e fedor diretamente emanado.
Os sujeitos se levantaram e disseram pra eu esquecer aquilo. A mulher era maluca. Um deles, o que usava boné, deu um murro na cara dela, chutou-a até que a moça caísse no chão. Continuou chutando-a. Aquilo aparentemente me impressionava. Já familiarizado eu procurei uma garrafa de cerveja na geladeira, mas peguei duas e também um copo. Quebrei uma das garrafas na cabeça do marmanjo, calmamente, mas usando força necessária para que o rapaz tombasse desmaiado. Fiquei bebendo com ligeireza meu copo e quando o outro rapaz apareceu disse que eu fizera cagada. A mulher então foi até ele, abraçou-o e virou a bunda. O cara deu vários tapas, chutou-a com a sola do pé e sentou-se no sofá dizendo: “Ela é a prostitua mais louca que eu já vi. Pagou a gente pra comê-la”. Terminei minha garrafa e fui embora.
Mais alguns quarteirões e então eu estava em casa curtindo meu hermafroditismo malhado.
ainda estou aprendendo
a te conhecer melhor.
sigo suas pistas
e reparo no seu cabelo
todas as vezes
em que nos encontramos.
às vezes nem te beijo
e é quando mordo a sua sombra.
tem dias que te beijo
e então tudo fica
mais ou menos confuso.
você é mulher musa
que surgiu numa dessas esquinas da vida
pra sacudir o meu destino.
te conheci e te gosto
mas gostaria de saber te usar melhor.
cadê o seu manual de instruções?
imagem: gustav klimt - 1907-08 - the kiss.
O combinado era irrevogável. O boêmio – malandro da segunda geração da metrópole da praia – morava a nove quilômetros dali. Pegaria dois ônibus até o lugar que Madalena enfatizara nas mensagens enviadas à incrível velocidade da luz pelo computador. A garota magra, loira, de nariz pontiagudo, de olhos pretos, sobrancelhas claras, estava de pé, de costas ao ponto. O cyber-café onde deveriam encontrar-se ficava no outro lado da rua. Vinte minutos correram rapidamente e ela sabia que o ônibus que encostava era o do rapaz. Viu com o canto dos olhos alguém com a mesma descrição: discreto, bem vestido, despenteado. Ele entrou na porta vai-vem. Era observado a cada instante.
Madalena trajava uma roupa diferente daquela que dissera que vestiria no tal dia. Era o tal dia, abafado, úmido, quase chuvoso. Ela ficou algum tempo ao balcão olhando para o moço. Viu que suas têmporas estavam suadas. Ele estava impaciente com os olhos aflitos e frenéticos, porém resignado. Tinha olhos fundos, face magra, corpo raquítico. Não corava de forma alguma. O movimento lento, ao pedir uma cerveja para a atendente, deu risos à garota que sentou de chofre na mesa. Olharam-se e três segundos depois ele disse:
- Eu não tinha visto.
- Nem eu. Fiquei ali esperando. Já ia embora.
- Tudo bem com você?
- Tudo. O que você pediu?
- Cerveja.
- Chope?
- Não. Dois copos.
Eles alcançaram a noite facilmente. Dividiram a conta. Na rua paradisíaca, mal cheirosa, requintada pelos clarões atordoantes, com explosões de barulhos incompreensíveis, sem categoria, imunda, linda, os deuses tutelares das intempestividades empurraram-nos para um poste inclinado. O hacker, despercebido de si, colocou uma mão nos cabelos dela e a outra em sua cintura e grudou-a nele. Ela apertava sua bunda e o beijava.
- Quantos anos mesmo?
- Eu disse várias vezes.
- É.
- Vinte.
- Dezessete.
- Mora perto então?
- Não.
- Espertinha. Vamos pra minha casa?
- De ônibus?
- Claro!
Caminharam mais um pouco, contornando o litoral, com os pés descalços na praia e resolveram que era páscoa carnavalesca. O ritmo do “indie rock” a poucos quarteirões dali, despejado dum palco improvisado, fez-lhes porem-se de prontidão à vontade. Um tiro seco enganou a noite e deu um susto. Já na água quente, reluzente, ela convidou-o para um banho. Ele riu e seguiu. Mandaram bala.
Acordaram com o sol fervorosamente chutando suas caras. Ele disse que passara um dia ótimo e que ela era bem legal. Ela contou que morava ali perto, num prédio beira-mar. Ele sabia disso. Ela emprestou três pilas abraçando-o e ele tomou o rumo num ônibus seboso.